O mundo não é mais o mesmo (pois eu não tenho mais quinze anos),Quando eu era mais novo, o mundo parecia sorrirComo um desenho animado antigoNuma manhã fria de domingoOu uma praia desertaNum fim de tardeDe agostoEm Natal.
O mundo é um lugar frioUm solilóquio arredio (e falso)Sobre como deveríamos ser melhores(E, afinal, quando seremos melhores nesse mundo?)
Toda vez que a pele ardeToda vez que o olho treme — e as carnes tremem —,E o peito aperta e o amor choraE eu me culpo por não ter vivido tanta coisaTanta vida desperdiçada por pura preguiça e tédioDe quem via o mundo como um parquinhoDe quem sabe, hoje, que a vida é um projeto,De quem vive hoje com os pés descalços.O asfalto é quente, fumegante, e então indolorSôfrego e frio, como se o sol fugisse.Não há muito o que dizer em termos técnicos:— Drummond1 e Gullar2 já disseram tudo.
Enquanto escrevo baixinho estas agonias,As antífonas secretas que guardei,Me pergunto se falta comprar alguma coisaAntes de sair para trabalhar.
Enquanto eu prepraro um caféPenso na fevura da água3 como um espetáculoDiscreto e intrigante — como a vida — e entãoNão mais que de repente (e ainda assim esperado)O silvo do vento que sibila entre as frestas da janela,Como um lembrete da existência, tange meus devaneiosComo quem diz: “Trabalha! Trabalha!"E eu penso no dinheiro que terei no fim do mês,Penso no tênis velho para jogar fora,Nas roupas que não servem mais,Penso no computador quebrado,Nas coisas que queria comprarE queimo minha língua num caféAmargo.
Rhuan EmanuelSanta Cruz, Rio Grande do Norte,05 de novembro de 2019
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), foi um poeta, farmacêutico, cronista e contista brasileiro. ↩︎
Ferreira Gullar (1930-2016), pseudônimo de José Ribamar Ferreira, foi um escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo. ↩︎
A pintura usada na thumbnail deste post é entitulada Cooking, do pintor estadunidense Jeremy Miranda. ↩︎
